#042 - A classe abstracta dos sentimentos
É digno de chamar a qualquer sentimento, algo abstracto. Por mais que queiramos, estes nunca serão palpáveis nem, nunca nos permitiram ter certezas sobre a realidade. Podem-nos guiar ao longo da vida, mas nunca confirmar uma solução. Mas será digno porque? Porque talvez, sejam estes, os sentimentos, a única coisa que não temos de objectivo e concreto. Talvez seja, mesmo, a única coisa que consegue ser totalmente subjectiva e infinitamente pessoal. Do mesmo modo que é totalmente indescritível e é resultado de um todo único no momento de sentir.
Apesar dos sentimentos terem a posse mais abstracta na intelectualidade humana e na irracionalidade também, penso que é possível ainda construir uma definição de um sentimento que por si só não existe.
Os sentimentos são, algo que pertencem a uma pessoa a 100% do tempo, estão constantemente a mudar e, basicamente, é com eles que tomamos muitas das decisões. Geralmente é com base nos sentimentos que seguimos determinadas vias da vida e da sobrevivência como ser animal que somos. Sendo algo intransmissível, é o “objecto” da vida que mais deve ser respeitado. E respeitado porquê? Também porque os sentimentos controlam um mundo que não tem controlo. As nossas atitudes reflectem os sentimentos, os nossos “sintomas” reflectem os sentimentos, as nossas relações com o mundo reflectem os sentimentos. Acontece que, nós poderemos ter, de alguma forma, controlo nas relações, nos sintomas ou nas atitudes, mas de forma alguma conseguimos ter controlo sobre o que sentimos. Por si só, definir “estar feliz” não significa nada. Um sentimento é impossível definir como algo objectivo e concreto. Poderemos dar algumas aproximações como, “está bem, está contente, tem sucesso”, mas todo este conjunto de aproximações implicam outros sentimentos que por si só também não têm qualquer definição. Claramente assistimos aqui a uma perda de conceptualização de um ente que existe. O facto é que o conceito existe, tanto existe que se fala nele, tanto existe que faz parte da vida, mas a única coisa que se pode definir sobre “sentir” é que é algo pessoal, próprio e intransmissível. Qualquer outro pormenor, restringe a classificação e passamos a perder “sentimentos” no conjunto, até porque os sentimentos podem demonstrar-se de modos diferentes e “mascarados” de outros sentimentos à vista de outros seres vivos. A felicidade de alguém pode ser vista como a tristeza de outra pessoa, por exemplo. O desespero pode significar desafio, entre muitos ou mesmo infinitos exemplos.
Apesar disto, apesar de inconscientemente as pessoas saberem deste facto ou, pelo menos terem alguma ideia sobre isto na mente, a realidade é que são os sentimentos o maior alvo de ataque por parte dos seres vivos, nomeadamente os humanos. Na maioria dos casos, existe uma relativização enorme de um sentimento, diminuindo ou aumentando todo o seu valor. É de, desculpem, TODO o modo impossível afirmar “estou mais triste que tu” ou, “estou mais feliz que tu”… simplesmente impossível. Estamos a entrar na área de comparação de um ente que não tem significado por si só. Como disse acima, os sintomas, as atitudes, as relações reflectem os sentimentos e, um sentimento específico é resultado da conjunção de outros sentimentos, acontecimentos, realidades, interacções etc… É incorrecto afirmar, deste modo, que um sentimento tem mais ou menos valor que outro. Se alguém está feliz, esse sentimento deve ser respeitado, se alguém está triste, também deve ser respeitado.
Com esta última frase, entramos num problema um tanto ou quanto ético. Os sentimentos que afectam negativamente outros seres. Ou melhor, corrigindo, os sintomas e atitudes, causadas por um sentimento, que afectam prejudicialmente alguém. A questão aqui resolve-se de um modo, mais ou menos, banal. Temos os sentimentos positivos internos que afectam o próprio, temos sentimentos negativos internos que, afectam negativamente o próprio e, temos os mesmos sentimentos a afectarem o próprio e as pessoas em redor em várias combinações possíveis. Uma vez que somos um ser social, o mais provável é cada sujeito ser alvo da exclusão sentimental no sentido em que, a maioria vence. Isto é, se um indivíduo tem sentimentos que se reflectem negativamente nos outros, o mais provável é antes de tentar que este fique com sentimentos positivos (caso necessário), diminua-se a reflexão negativa no ambiente em redor. Isto permite uma recuperação bastante mais rápida de uma comunidade como um todo. Será impossível alguém continuamente deixar-se sentir “mal” para outro se sentir bem, até porque isso leva ao problema do controlo sentimental. Ou seja, os sentimentos mutuam-se por si mesmo e aquilo que se pode considerar “deixar sentir mal” entra no ramo do sentimento positivo nessa pessoa. Por exemplo, o problema “prefiro estar triste, mas vê-lo bem”. Já de si é uma contradição, porque a pessoa de algum modo sente-se “bem” por ver o outro bem, apesar de ter um sentimento de tristeza. Sentimento esse que com o tempo, acaba por se tornar em felicidade ou então a pessoa terá de mudar inconscientemente de estratégia.
Por fim, existe sentimentos que abrangem um mundo abstracto ainda maior. Isto é, sentimentos que são capazes de englobar lados positivos e negativos simultaneamente. Sentimentos que tornem tudo num mundo de indecisão. Querer algo que não se sabe o que… Este tipo de sentimentos leva-nos a uma grande confusão interna. É impossível reter o quer que seja e, qualquer atitude existencial não consegue satisfazer um sentimento que simplesmente não sabemos qual é. São aqueles sentimentos que provocam no ser, um alargamento exageradamente grande de componentes e atributos que fazem com que tudo no universo não seja suficiente para este espectro. Algo bom nos “outros” sentimentos é que podemos agarrar numa causa/culpa/resultado, neste tipo de sentimentos isso não acontece. Simplesmente a sua classe é exageradamente grande e, não havendo nada que os provoque, também não há nada que os faça desaparecer. Muitas vezes este tipo de sentimentos de espectro alargado causam pequenos desníveis nos outros sentimentos, provocando, em certo sentido, a confusão sobre o que serão eles. Digamos que sentimentos de espectro alargado quase que servem como base para uma mutação de sentimentos mais específicos.
De facto, os sentimentos é algo que nos impulsiona na vida e de certo modo, serão os entes mais importantes de respeitar…
Daniel Bento
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- Published:
- 12.15.07 / 11pm
- Category:
- Sociedade







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