#048 - A razão (ou não) do “é normal”

Em conversas com amigos, com inimigos ou com quem quer que seja 90% das pessoas já deve ter usado a expressão “é normal” como palavra de “consolo” para uma problemática. Quer aplicada a um amigo chegada, quer aplicada ao conceito de problema mais “simples” que existe. Por vezes essa expressão torna-se de facto exagerada ao ponto de, servir como “justificação” para diversas causas e para a não a actuação em determinadas situações. Quantos de nós não negou já enfrentar uma situação só porque ela “é normal”? É disto que pretendo falar nas próximas linhas…

Ora bem, vamos aplicar o conceito de modo dedutivo. Ou seja, vamos partir do conjunto humano como padrão geral e ir aplicando até à unidade, penso ter mais lógica assim do que aplicar indução.

Todos os dias somos confrontados com situações normais, anormais ou simplesmente, situações, O ser normal ou não pode surgir em contextos diferentes e pode variar de acordo com a percepção de um indivíduo. A questão aqui prende-se que, a nível social, não é a percepção do indivíduo que conta, mas sim de uma sociedade em geral à qual o indivíduo pertence e se rege, logo, é habitual este adquirir propriedades e características dessa mesma sociedade que, por si só já pertence a uma sociedade ainda maior. Assim temos que dentro dos acontecimentos do dia a dia, dentro da normalidade, deduz-se aqueles que acontecem com maior frequência e, por sua vez, os não normais (não gosto do termo anormal) com menos frequência. Este é um conceito interiorizado, mas que mal aplicado pode levar a consequências estranhas. Se observarmos um problema “comum” que afecte a sociedade global (na Terra claro), é fácil determinar que o facto dessa problemática ser “normal” e frequente, a percentagem de pessoas que vai questioná-la, independentemente de ser boa ou má, será mínima. É comum, assim, ouvirmos expressões “é normal que isso aconteça, não faço caso”… O que se passa é que, a normalidade nem sempre é o correcto e não é sinónimo de cruzar os braços. Por vezes, essa mesma normalidade é muito mais problemática que a anormalidade.

Se reduzirmos “o espaço” para algo mais pequeno, por exemplo, um país, reparamos que as causas que afectam o país, apesar de normais, podem ou não ser algo de questionamento. É muito fácil acontecer que, dentro de um determinado grau de gravidez, a normalidade seja “deixada passar”. É a velha expressão, “toda a gente faz o mesmo, é normal, logo também não vou ser eu a mudar”. Neste momento, reduz-se drasticamente a possibilidade de encontrar uma solução e lutar por ela, dado que já houve um sentido de rejeição. E isto começa a ser grave quando se estende a problemas graves e, infelizmente aqui posso dizer “é normal” isso acontecer.

Agora reduzindo ao espaço da unidade individual, se repararmos com atenção, a expressão “é normal” é habitualmente usada por amigos que tentam dar uma palavra de consolo. É verdade, pode dar essa ajuda, mas definitivamente não é a melhor coisa. Eu, por exemplo, não gosto quando digo essa expressão. Isto porquê? As questões problemáticas são muito pessoais, os problemas afectam de modo diferente cada ser. A verdade é que é possível com uma expressão destas arruinar a auto-estima de uma pessoa. Afirmar a normalidade de um problema pode desvalorizá-lo por completo. Há uma infinidade de coisas normais e de problemas normais, mas quando se está dentro dessa normalidade má ou boa, é desnecessário desvalorizá-la (falo tanto para algo bom ou mau, nos sentimentos bons passa-se exactamente o mesmo, é fácil desvalorizar um sentimento de felicidade pela sua normalidade).

Em suma, o “é normal” é uma expressão que deve ser bem usada e, para além disso, é importante reconhecer que é necessário muito trabalho atrás do normal… Nas coisas boas é preciso lutar para as manter, nas coisas más é preciso lutar para as mudar. Acima de tudo, é importante reconhecer que não é por ser normal que algo é mais simples e mais fácil de lidar, por vezes é completamente ao contrário. A anormalidade tem uma coisa bastante boa, é facílimo deduzir a causa porque, simplesmente, é uma causalidade, é apenas um desvio e normalmente o caminho da anormalidade pode ser previsto muito mais facilmente ao contrário da normalidade que nos trás muitos, mas muitos caminhos que, por vezes, tornam-se algo super complexo de navegar!

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